terça-feira, 29 de março de 2016

PODE UM CRISTÃO PERMANECER NO PECADO? ROMANOS 6: 1-2

Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?

Por Rogério Bernini Junior

Já estudamos o capitulo cinco de Romanos, e está mais do que constatado à necessidade de descansarmos nas verdades aqui aplicadas sobre a garantia da nossa justificação. A maior benção que todos os eleitos salvos em Cristo Jesus desfrutam é a certeza de que foram reconciliados com o Pai, obtiveram o perdão de todos os seus pecados na morte de cruz de nossos Senhor Jesus e que A salvação nos é garantida pela habitação do Espirito Santo. 

Veja que na segunda sessão deste capítulo (dos versículos 12 ao 21) Paulo nos dá uma constatação histórica através de uma comparação ou contraste entre Adão, o nosso primeiro pai e representante da raça humana e Jesus Cristo, o segundo representante e aquele que é superior a todo o legado do pecado de Adão sobre todos os seus descendentes.

Paulo nos deixa claro nos versos 20 e 21 que a graça superabundou sobre os efeitos da lei do domínio do pecado e da morte. Em outros termos, a graça anulou a acusação e a culpa de nossas transgressões em relação a lei como também anulou o domínio do pecado sobre todos os que foram justificados.

Estes versículos fazem uma conexão com o início do capitulo seis demonstrando claramente que Paulo não encerrou o assunto já iniciado no capitulo cinco. Na verdade, estamos falando do mesmo tema até o capitulo oito. É como se Paulo desse uma pausa para fazer algumas considerações importantes sobre o que foi dito nos versos 20 e 21 e evitar qualquer mal-entendido sobre a doutrina ali exposta.

É comum sermos acusados de estimular nossos membros a negligência com a sua santificação quando expomos a doutrina da certeza da salvação. Possivelmente, após o apóstolo Paulo ter dito que os eleitos não perdem a salvação, isto daria subsídio suficiente aos que negavam esta doutrina.

Paulo está precavendo seus leitores exatamente deste raciocínio equivocado e perigoso. O fato de não perdermos a salvação não anula a necessidade de obediência a lei de Deus. Pelo contrário, Paulo nos mostra que a obediência a lei de Deus é boa quando a graciosamente somos atraídos a Cristo. 

Portanto, o capitulo seis, é a continuidade do que foi desenvolvido no capitulo cinco. Antes de tudo, o capitulo seis nos fala da santificação dos eleitos como o processo que não apenas mortifica os nossos desejos pecaminosos, mas, que também, confirmam, ou, evidenciam a salvação aplicada em nós pelo Espirito Santo.

A ideia aqui de Paulo não era interromper um assunto e começar outro. Pelo contrário, esta carta foi escrita com o propósito de estabelecer um raciocínio contínuo e lógico de todas as doutrinas do evangelho. Paulo está nos mostrando que a santificação é uma consequência da justificação.[1]

O assunto santificação não está separado da doutrina da justificação. Existe aqui uma continuidade no raciocínio aplicado por ele sobre os assuntos pertinentes ao evangelho. Mesmo que venhamos a tratar de um novo ponto em relação a doutrina da salvação, não se esqueça que estamos seguindo uma sequência lógica e ininterrupta.

Sendo assim, nos vem de imediato uma pergunta crucial no verso um do capitulo seis: QUE DIREMOS, POIS? PERMANECEREMOS NO PECADO PARA QUE A GRAÇA SEJA MAIS ABUNDANTE? Bom, o sermão de hoje começa exatamente aqui. Comecemos com esta pergunta que é crucial. Nos parece aqui que Paulo está antecipando uma pergunta. Provavelmente uma pergunta que os seus leitores mais atentos fariam a ele após as suas palavras conclusivas em todo o capitulo cinco.

Creio ser importante considerar que Paulo também se antecipa a esta pergunta no intuito de ajudar aos seus leitores que poderiam ter dificuldades de entender o que fora dito nos versos 20 e 21 do capitulo cinco. Esta declaração de Paulo poderia levar muitos judeus que se converteram sinceramente ao cristianismo a não entender com clareza a relação da lei com a graça.

Contudo, ainda considero o fato de Paulo se precaver de dois grupos que nos parece ter exercido uma influência negativa sobre os cristãos daquela época. O que ambos tinham em comum era a negação da suficiência da graça na justificação dos eleitos. Mas cada um daqueles grupos o aborda de maneira diferente.

Enquanto o primeiro grupo pergunta: Será que quanto mais eu pecar, mais a graça de Deus vai se manifestar em mim? O segundo questionava: Se a graça anula os efeitos da lei sobre nós, então devemos desconsiderar a lei? A lei não tem mais nenhuma utilidade?

É possível que nestes dois grupos existissem aqueles que de alguma forma se opunham aos ensinamentos de Paulo. Entre eles os que poderíamos chamar de liberais ou libertinos (gentios que se diziam cristãos, mas, não abandonavam seus hábitos pecaminosos e seu paganismo) e os legalistas ou judaizantes (judeus que se diziam cristãos, mas, que afirmavam ser necessário a obediência restrita a lei para serem salvos).

Ambos os dois segmentos tinham o mesmo objetivo, se opor a doutrina da suficiência da graça na justificação. Mas, me parece que os que mais se opuseram a Paulo foram os libertinos que desejavam encontrar algum respaldo para alimentarem seus vícios pecaminosos.

Assim Paulo então pergunta: Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? E então, eu devo pecar mais para que a graça aumente em mim? Se quisermos mais a graça de Deus, devemos pecar mais? Interessante verificar na história, o monge russo chamado Hasputin que dizia: quanto mais uma pessoa peca, mais graça ela receberá. Então, peque à vontade.

Um detalhe que devemos considerar aqui é a expressão “permanecer” que pode ser traduzida também como “demorar” no pecado, ou, ainda; “perseverar” na prática do pecado. Alguém que persiste fervorosamente no pecado. Alguém que não apenas peca mecanicamente, mas, ele ama, estima o pecado.

Veja aqui algo importante em relação a esta expressão. Paulo está sendo muito claro e objetivo em sua pergunta. Ele não está usando a palavra “permanecer” para dizer que, a partir da conversão a pessoa deixa de pecar contra Deus. Não é preciso lembra-los de que todos os dias nós infelizmente pecamos contra Deus. Mesmo depois de nossa conversão a Cristo, ainda temos que lidar com a nossa natureza pecaminosa e ainda corruptível.

Mas, o que me chama a atenção na expressão “permanecer” é a disposição em que uma pessoa se encontra em relação a esta condição natural do homem. A pergunta de Paulo é simplesmente clara: PODE UM VERDADEIRO CRISTÃO ESTIMAR COM TODA SUA ALMA E CONVICÇÃO O PECADO? 

No entanto, veja a resposta de Paulo no versículo 2: De modo nenhum! Em outras palavras: mais do que não é permitido, isto é impossível! A tradução feita pelo reformador João Calvino e que também foi usada durante muito tempo pela versão King James está da seguinte forma: que Deus nos livre! Ou então, Que Deus não permita isso! Não devemos sequer pensar em uma coisa desta.

A ideia do apóstolo Paulo é claramente de repudiar com grande indignação uma atitude tão irracional e fútil (Calvino, pg. 202). A tentativa de muitos membros de igreja justificar a prática de nutrirem seus vícios e hábitos pecaminosos nada mais é do que rejeitarem o único modo de sermos conduzidos a justiça divina: justificação pela graça mediante a fé em Cristo Jesus. 

Por isso, Paulo nos lança uma segunda pergunta como resposta a primeira: Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos (verso 2)? Em outras palavras: é possível que morreu para o pecado continue vivo na prática do pecado? Se a graça de Deus nos concede uma nova vida, se ressuscitamos com Cristo, como então podemos ao mesmo tempo ainda viver e desejar compulsivamente o pecado?

Se morremos para o pecado, ou seja, se em nossa consciência já não há mais o domínio do pecado, se fomos regenerados, se a mentalidade ou a forma de vida pecaminosa não mais governa a minha mente e a minha forma de ver o mundo, como posso então ainda desejar e viver no pecado?

Observe bem que estamos diante de uma pergunta retórica, ou seja, Paulo está provocando os seus leitores não apenas a lógica desta doutrina, mas também, os perigos que rondam a consciência de muitos “crentes” que desejariam justificarem seus vícios pecaminosos na ideia de que “a graça é tão abundante em nós que não importa a quantidade de vezes que você peque, Deus sempre vai perdoar, não é mesmo? ” 

Isto é o que historicamente chamamos de Antinomianismo, ou, antinominiano. Quer dizer: contra a lei de Deus. Esta foi uma heresia que surgiu no século dezesseis em meio a reviravolta da reforma protestante na Alemanha. Os antinominianos claramente diziam que se a justificação era somente pela fé, então o cristão estaria desobrigado da sua obediência a lei de Deus. Apenas para que fique registrado, Martinho Lutero ficou extremamente irritado tanto com a acusação que lhe fora feito por parte da Igreja Católica Romana, e mais ainda de um de seus seguidores que defendia e disseminava esta doutrina.

Infelizmente esta mentalidade herética e demoníaca tem se perpetuado, mesmo que de forma pragmática. Esta mentalidade está visivelmente enxertada em nossas igrejas. Como tem se tornado comum igrejas inteiras que se consideram tradicionais e até mesmo conservadoras em suas convicções teológicas, mas, desprezam a necessidade de seus membros zelarem por uma vida ética, moral e piedosa diante de Deus.

O resultado disto está mais do que evidente até mesmo na estrutura social em que vivemos. Igrejas que não se preocupam com a busca pela santidade e piedade são mais do que desviados, são pedras de tropeço para a sociedade vigente de sua época. Não são apenas motivo de vergonha, mas, servem de sinais do peso da mão de Deus sobre aquela sociedade e geração.

E mais, uma igreja que não zela pela santidade e a piedade de seus membros, simplesmente demonstra que não leva a sério a doutrina da justificação pela fé.  Uma igreja que não considera a necessidade de santificação na vida de seus membros é uma igreja que considera a doutrina da justificação como um elemento descartável e útil apenas quando lhe convém.

Eu pergunto a você, como pode alguém que se diz cristão viver sem a santificação? Como é possível um verdadeiro cristão receber a fé em Cristo sem que a coloque em prática na sua obediência a ele? A aplicação aqui é muito simples. Se você se considera um cristão, mas, ama e flerta com o seu pecado. Se você brinca com os seus pecados, então você não é genuinamente cristão.

Se você, mesmo sendo membro da igreja há muito ou pouco tempo não abandonou os seus pecados, então você não recebeu a fé e o arrependimento. Se você se encontra a tanto tempo na prática de seu pecado e vive dando desculpas usando como argumento fútil de que pela graça Deus sempre vai te perdoar, a única coisa que posso lhe dizer é que você não é salvo em Cristo Jesus.

Pode alguém que morreu para o pecado, viver na prática do pecado? Não! Categoricamente, não! Isto não é possível. Ou você se arrepende de seus pecados e passe a ter uma novidade de vida, ou, então, você não é um cristão. Como veremos nos versos posteriores, ou, você morre com Cristo e para o pecado, ou, você está entregue aos seus pecados e não ressuscitou com Cristo.

Neste exato instante, gostaria de perguntar se falo com vivos ou mortos? Quem são os ouvintes de hoje? Vivos ou mortos? Estão mortos para o pecado e vivos em cristo, ou, estão mortos e apenas mortos? Amém! 

Sermão Pregado no culto vespertino do dia 27 de março de 2016.



[1] SPROUL, R. C. Romanos. Cultura Cristã. Pagina 167.

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